Por Marcelo Gomes
Fotos: Roberto Sant’Anna
Treze anos após sua última visita, um dos vocalistas mais marcantes da história do hard rock voltou a se apresentar em São Paulo, desta vez na Burning House, que recebeu excelente público e teve sua capacidade praticamente esgotada. A expectativa era grande para rever o lendário Graham Bonnet, a voz que eternizou clássicos de Rainbow, Michael Schenker Group e Alcatrazz. O vocalista chamava a atenção ao surgir no palco apoiado por uma bengala devido a um problema no tornozelo e realizou toda a apresentação sentado. Qualquer receio de que isso pudesse comprometer o espetáculo desapareceu rapidamente. Seu carisma, bom humor e a experiência de quem atravessou mais de cinco décadas de carreira fizeram da limitação apenas um detalhe.

A abertura foi simplesmente arrebatadora. Eyes of the World e All Night Long, dois clássicos absolutos do Rainbow, incendiaram a Burning House logo nos primeiros minutos e fizeram o público cantar praticamente cada verso. Bonnet ainda mostrava potência vocal suficiente para conduzir os grandes refrães, enquanto sua competente banda, composta por Conrado Pesinato (guitarra), Beth Ami (baixo), Alessandro Bertoni (teclados) e Kyle Hughes (bateria), entregava execuções fiéis e carregadas de energia. Em seguida, S.O.S. manteve o clima elevado antes de o vocalista introduzir Love’s No Friend com uma divertida lembrança dos tempos “em que os dinossauros ainda andavam pela Terra”. Na sequência, agradeceu a Ronnie James Dio por ter deixado o Rainbow e a Ritchie Blackmore pela oportunidade que, segundo ele, mudou completamente sua vida. Já em Night Games, Bonnet recordou que a música foi gravada ao lado de dois gigantes do rock, Cozy Powell e Jon Lord, arrancando aplausos dos fãs mais atentos.

Um dos destaques da noite veio quando Bonnet deixou temporariamente o palco para que seus músicos brilhassem. O guitarrista Conrado Pesinato fez as honras antes do inspirado solo de teclado de Alessandro Bertoni, que passeou por trechos de Child in Time, Perfect Strangers e até uma bela citação de The Great Gig in the Sky, do Pink Floyd. A homenagem desembocou em uma versão instrumental de Lazy, conduzida por um duelo eletrizante entre guitarra e teclado, que arrancou gritos e aplausos da plateia. A qualidade técnica da banda ficou evidente durante toda a apresentação, mostrando por que Bonnet faz questão de enaltecer seus músicos sempre que possível.

De volta ao palco, o vocalista fez justamente isso: não poupou elogios aos companheiros antes de apresentar God Blessed Video, lembrando que a compôs ao lado de Steve Vai nos tempos de Alcatrazz. Logo depois veio Imposter, apresentada com bom humor dizendo que a escreveu ao se olhar no espelho e não reconhecer o próprio reflexo, uma brincadeira sobre a passagem do tempo que arrancou risos do público. Desert Song, escrita em parceria com Michael Schenker, reforçou outra fase importante de sua carreira, preparando o terreno para Jet to Jet, que ainda abriu espaço para um vigoroso solo do baterista Kyle Hughes. O músico foi ovacionado após inserir trechos de War Pigs e Stargazer, demonstrando técnica e bom gosto, sem cair em exageros.

A parte final foi construída em clima de celebração. Antes de Since You Been Gone, Conrado anunciou que tocariam uma música nova e imediatamente executou o riff de Smoke on the Water, arrancando gargalhadas do público e do próprio Bonnet. A brincadeira terminou quando o clássico do Rainbow finalmente começou, provocando uma das maiores cantorias da noite. Into the Night manteve o embalo, enquanto Assault Attack levou os fãs da fase com Michael Schenker ao delírio. Sem sair do palco, o bis começou com Too Young to Die, Too Drunk to Live, que transformou a Burning House em um enorme coro, provando que o repertório do Alcatrazz continua extremamente relevante.

O encerramento com Lost in Hollywood resumiu perfeitamente o espírito da apresentação. Mesmo enfrentando limitações físicas, Graham Bonnet entregou uma performance digna de sua trajetória, sustentada por uma banda afiada, repertório impecável e um carisma que poucos artistas conseguem manter após tantas décadas de carreira. Mais do que um desfile de clássicos, a noite representou o reencontro de uma lenda com um público que jamais esqueceu sua contribuição para o hard rock. Treze anos depois, Bonnet mostrou que algumas vozes e algumas canções simplesmente desafiam o tempo.
Ao final do show, eu e Roberto Sant’Anna, fotógrafo desta matéria, tivemos o privilégio de conhecer essa verdadeira lenda do rock, que nos recebeu com enorme simpatia em seu camarim. Durante a apresentação, tive a impressão de que Graham Bonnet ainda sentia os efeitos do problema em seu tornozelo, o que naturalmente levantava dúvidas sobre sua condição física. No entanto, bastaram alguns minutos de conversa para que ele demonstrasse exatamente o oposto: bem-humorado, atencioso e cheio de energia, esbanjou carisma durante o breve bate-papo que tivemos. Fica aqui um agradecimento especial ao guitarrista Conrado Pesinato e ao produtor Rodrigo Scelza por tornarem esse encontro possível e por nos proporcionarem um momento tão especial.


Setlist
Eyes of the World
All Night Long
S.O.S.
Love’s No Friend
Night Games
Solo de teclado / Lazy
God Blessed Video
Imposter
Desert Song
Jet to Jet / Solo de bateria
Since You Been Gone
Into the Night
Assault Attack
Too Young to Die, Too Drunk to Live
Lost in Hollywood
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